Companhia das Quintas

Garrafa de espumante pintada pelos artistas da Fundação Afid Diferença

O vinho dispersa-se pelas artérias e traz uma sensação quase sagrada. Transformemo-lo em sangue, calor, talvez coragem.
E pensemos na quantidade de coisas extraordinárias que podemos aprender com a natureza…
Aprender a apreciar a harmonia doce que envolve as searas e os corpos… a apreciar a praia que no mesmo dia é capaz de nascer e morrer, encenada pela geografia das marés… os oceanos de árvores e os Invernos ásperos… as planícies que só acabam no céu… o Tejo engrossado pelas chuvas… as tardes a afogarem-se no mar… o cheiro a chuva recente…o calor colado às coisas… o vento a soprar como um suspiro imenso…
Aprendamos com a natureza a maravilha que é espiar a graça gratuita das nuvens, deitarmo-nos a assistir ao céu ou apreciar as árvores desdentadas de folhas…
E aprendamos ainda o quão sublime é plantar uma semente, por mais minúscula que seja, e acompanhar o seu crescimento, e perceber de quantas muitas vidas é feita uma árvore. Ou o que significa afagar um gato, alimentar um cuco e ouvir o rouxinol no seu canto matinal para nos sentirmos bem por nada.
Aprendamos também que se quisermos ver o arco-íris teremos de suportar a chuva. Que mais do que viver em cima da montanha, a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta. E que a fecundidade ou a inutilidade da nossa vida está nas nossas mãos e, no fim de tudo, percebamos que a verdadeira importância da existência é a magia de sermos úteis a uma pessoa que seja.

Evitemos a morte em doses suaves e recordemos sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples facto de respirar. Tchim tchim.

Ana Rita Ramos
Dez 2008

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